No dia 28 de março, o Edifício London se transformou no palco de um mistério: nessa data, a menina Isabella, de apenas 5 anos de idade, seria encontrada morta no local, depois de ter sido atirada do sexto andar. A polícia suspeita, com base em informações da perícia, que o pai e a madrasta da garota, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, tenham sido os autores do crime. O casal nega.
Neste fim de semana, no entanto, o London tenta retomar a normalidade. Tarde de sábado. O silêncio é interrompido pelo barulho das crianças gargalhando e aprontando dentro do prédio. Donas de casa conversam à beira da portaria, em frente ao verde bem cultivado do jardim de entrada. Um repórter pede para conversar com uma delas. Ela, aos risos, recusa gentilmente o convite:
- Só falo com o William Bonner.
Domingo. Câmeras preparadas, policiais às pencas, curiosos permanecem atrás de uma área especialmente demarcada. Os peritos chegam para o trabalho. Seria um dia como qualquer outro - não fosse a reconstituição do assassinato da garota Isabella Nardoni.
A festa
Sábado. Começa o pôr-do-sol, e com ele chega a hora da festinha de aniversário de Pedro Henrique, 7 anos recém-completados. O garoto é filho do subsíndico do edifício que, assim como os demais moradores, foge das câmeras de TV e dos repórteres de plantão - como o diabo da cruz.
Alheio ao mundo lá fora, o aniversariante recebe os convidados. É uma comemoração pequena; cerca de 30 pessoas, distribuídas homogeneamente entre adultos e crianças. A festa começa às 19h.
As crianças se divertem e os adultos batem papo, trocando gracejos e cordialidades entre si. Falam da festa e evitam comentar a morte de Isabella. No entanto, não resistem a um comentário quando fitam o local onde a menina foi encontrada - um pedaço de terra que permanece marcado pela queda no meio do jardim.
- Gente, o que é isso...
Nos fundos do salão, os adultos se refestelam com crepes, coxinhas, empadas, algodão doce, batatas chips e muito churrasco. Para beber, além de refrigerante e cerveja, pelo menos duas garrafas de vodka. Também há frutas - kiwi, sirigüela, carambola - usadas tanto no preparo das bebidas quanto na comilança em geral.
Animadas, as crianças continuam ziguezagueando por entre as mesas de plástico branco alugadas especialmente para a ocasião. O futebol parece não ser o forte da molecada; a quadra do prédio fica às moscas na maior parte do tempo. A noite se aprofunda, e com ela diminui o burburinho criado pela imprensa e que irrita os moradores do prédio.
Curiosamente, o silêncio parece agradar a todos: a festa não tem música.
Do lado de fora
Em frente ao prédio, presença ostensiva de policiais e jornalistas - estruturas de mais de 5 metros de altura foram montadas na rua para cobrir a reconstituição. Cinegrafistas da RedeTV! jogam truco, produtores da Globo lêem o caderno Metrópole do Estadão, apresentadoras alisam o cabelo pela enésima vez.
Um menino trepa no portão de casa. Deve ter seus 5 anos de idade. Sorrindo, somente os caninos à mostra, cantarola:
- Eu moro na rua da Isabella, eu moro na rua da Isabella, eu moro na rua da Isabella..
Os moradores dos prédios vizinhos ao Edifício London "cederam" seus apartamentos à imprensa - por até R$ 5 mil. É o preço do melhor ângulo.
Dormir, enfim
São 21h. A hora do "Parabéns" se aproxima. É possível observar um certo desconforto entre os convivas por estarem ali às vésperas da reconstituição de um homicídio. Não há, porém, sinal de arrependimento. Uma das amigas da família anfitriã comenta:
- Acho uma palhaçada criticar quem veio à festa; se não fosse a imprensa, estaria tudo normal. Isso acontece em vários lugares e ninguém fala nada; agora, aqui ninguém mais pode fazer nada porque é desrespeito? A vida continua - opina.
Descontraídos, alguns pais recorrem ao politicamente incorreto para educar seus filhos e levantar o astral dos presentes:
- Menino... Pára de correr senão te jogo da janela, hein?
Numa mesa vizinha, um dos convidados, morador do London, comemora a ausência de helicópteros na região, em referência à medida judicial que impediu as aeronaves de sobrevoarem a região para transmitir a reconstituição.
- Hoje eu finalmente vou poder dormir.
Parabéns
São 21h35. Pedro Henrique se posiciona à frente do Homem-Aranha que compõe a decoração do buffet para formalizar seus 7 anos de idade. Começa o "Parabéns".
- Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!
O aniversariante corta o bolo de chocolate e morango, que passa a ser servido aos demais - acompanhado de brigadeiros, beijinhos e outros doces típicos da ocasião. Bexigas são espetadas, e a empolgação inicial das crianças dá lugar à calmaria.
Os convidados começam a ir embora e, um a um, despedem-se da família. Alguns policiais do GOE (Grupo de Operações Especiais) fazem o caminho inverso, entrando na festa em busca de um aperitivo que os ajude a varar a madrugada.
Um deles, com uma metralhadora chilena FAMAE em mãos, espreita pelo hall de entrada do prédio. Crianças passam ao lado, curiosas. Os policiais voltam para a rua com copos cheios de Coca-Cola.
- Peguei um pratão de picanha, viu...
Já passa da meia-noite. O pessoal do buffet começa a retirar suas barraquinhas de dentro do salão de festas. A rua está bloqueada, e só moradores cadastrados podem acessá-la. No London, a maioria saiu durante o fim de semana para evitar o rebuliço da imprensa.
No domingo, começa mais um dia de espetáculo na Rua Santa Leocádia